Noite do beijo entrelaça as histórias de um designer gráfico que mora em São Paulo e o jovem que liderou a manifestação contra a proibição beijo em público.
Fartos dos militares, da censura, da repressão e tortura, um minguado grupo de secundaristas e jovens imaginava o retorno das instituições democráticas e alguns, até, com um país socialista, igualitário. Viam as fissuras do duro regime de exceção e pautavam a luta pelo ensino público, gratuito e de qualidade, a criação dos grêmios livres nas escolas, a meia passagem e o fim do autoritarismo, entre outras reivindicações.
O quadro nacional opunha uma promessa de abertura política do general-presidente João Figueiredo, que prometia ‘prender e arrebentar’ quem fosse contra e o novo movimento sindical, desatrelado do sindicalismo pelego, a partir do cinturão industrial do ABC paulista, que protagonizava gigantescas greves metalúrgicas. Nas universidades, a reconstrução da UNE ganhava novo impulso a cada dia. O bipartidarismo (Arena e MDB) entrava em lenta agonia.
Na surdina, as forças reacionárias que sustentavam o regime ainda queimavam bancas de jornal que vendiam os chamados ‘nanicos’ – publicações alternativas e de esquerda, como Movimento, Pasquim, Opinião e Versus – e planejavam atentado à bomba no Rio Centro, onde dez mil pessoas acompanhariam um show de MPB com nossos artistas de destaque, Chico, Gal, Caetano… felizmente frustrado (a bomba explodiu no colo de dois militares dentro de um carro civil), e nunca esclarecido.
O movimento secundarista espelhava-se na reconstrução da UNE como entidade livre e representativa dos universitários. E a dinâmica mostrava a incrível penetração de uma nova esquerda, distanciada do projeto comunista, que buscava vínculos com o movimento operário e apoiava a criação de um partido dos trabalhadores. Os jovens mantinham contato com o movimento secundarista em São Paulo, mais avançado, e alguns logo aderiram ao Alicerce da Juventude Socialista, de orientação trotskista. Mas a cidade parecia calma, sonolenta, no calorzão de mais um mês de férias, meio sem saber que borbulhavam, nos subterrâneos, forças juvenis e utópicas que buscavam um futuro melhor.
Uma notícia, porém, caiu como uma bomba e provocou imediata reação. Lemos, estupefactos, que o juiz de Direito e de Menores da Comarca, dr. Manuel Moralles, assinara uma portaria onde proíbia beijos e apertões em locais públicos. A partir daquele dia, 28 de fevereiro de 1981, estavam vetados pela lei 005/81 “os beijos cinematográficos em que as mucosas labiais se unem em expansão insofismável de sensualidade” e mais: “as apalpadelas, apertões, abraços indecorosos, beijos prolongados ou qualquer ato libidinoso, quando praticados em locais públicos”. Enormes letras, num muro da avenida Marginal, desferiam o primeiro golpe da juventude na batalha: “O BEIJO É UM NEGÓCIO SEM MORALLES, NÉ, MANÉ?”.
Nos jornais, o assunto ganhava corpo. Um deles, o Diário de Sorocaba, mostrava-se indignado com a falta de respeito à lei e fomentava a disputa. Um promotor aposentado que não quis se identificar – “ procurado em seu retiro”, segundo o repórter – explicava em matéria de destaque: “Há beijos históricos que marcam um momento e se perpetuam. Assim o de Tiradentes aos pés do carrasco negro Capitânia, em sinal de perdão, na hora crucial de seu suplício; o de Ruy Barbosa nas mãos do juiz Toledo Piza, em reverência à independência da Justiça; o de José do Patrocínio aos pés da Princesa Isabel, agradecendo-lhe a assinatura da lei libertadora. Há beijos que as Letras eternizaram, havendo Cirano exclamado que “das lágrimas ao beijo a diferença é pouca”, sendo o beijo o “modo de aspirar o coração no rosto”, e “de provar-se, um pouco, à flor dos lábios, a alma”. (…) Há, portanto, beijos que nem a lei, nem a religião, nem a moral, nem os costumes condenam. Volto ao tema: há beijos e beijos. Assim, também o beijo a que se refere Cirano é o beijo espiritual buscando sorver a Alma de Roxana. Não é o beijo pecaminoso – o dos seis sentidos, no dizer dos teosofistas – como prelúdio ao ato sexual. O beijo que ela condena é aquele sucedâneo do ato sexual ou libidinoso, quer resultante de impulso lascivo, quer tendo por finalidade a satisfação do ato sexual. O beijo que ela condena é o beijo-ventosa, língua na língua, corpos se entrelaçando em contrações sensuais, escandalizando os transeuntes e estupidificando crianças e velhos.”
Jovens sempre incomodados pelos guardas – “circulando, circulando” – quando se beijavam e se amassavam nos bancos das praças. Os motéis eram proibidos. E a sensação de que tudo podia piorar. Numa conversa de boteco, com Julio Cesar Gonçalves, Airton Segura, Pedro Tuco Cadina, eu e outros – jornalistas que haviam criado o arrojado tablóide alternativo Sorocaba Urgente, no ano anterior – surgia a ideia de fazer um dia dedicado ao beijo, entre risos. Mas para beijar, o melhor é a noite, todos sabiam. Pronto. Uma semente estava lançada e iria germinar em plena reunião secundarista.
A ‘Noite do beijo’ foi convocada como um ato de desagravo, com poesia, teatro, música e, claro, protesto. Decididamente na praça Central, sábado, defronte aos tradicionais bailes discoteques do Ipanema e Sorocaba Clube. Cada um assumia sua tarefa: um iria chamar o pessoal do teatro e montar uma esquete; outro ia tentar o apoio da oposição metalúrgica; outros irão fazer faixas, panfletos e procurar um carro de som, tudo numa efervescência espontânea. A intensa movimentação prometia levar muitos jovens à praça e, finalmente, dar um impulso para a fundação da União Municipal dos Estudantes Secundaristas. Imaginamos reunir umas trezentas pessoas, já uma impressionante conquista.
Naquela noite eufórica, porém, mais de quatro mil sorocabanos se rebelaram e deixaram este exemplo de luta de sua juventude. O católico e conservador Diário de Sorocaba relatava com destaque, em toda a primeira página da edição de domingo, 8 de fevereiro de 1981:
“Houve politicagem e muita baderna. No final, conflitos e depredações
‘Noite do beijo’ termina
em violência e até prisões
Terminou em pancadaria e depredações os manifestos realizados na noite de ontem no centro da cidade, em protesto contra a recente portaria baixada pelo juiz de Direito da Comarca, dr. Manuel Moralles, proibindo os beijos cinematográficos e eróticos nas ruas e praças públicas de Sorocaba. Nas primeiras horas da madrugada de hoje, circulavam informações de que o Deops – Departamento Estadual de Ordem Política e Social – deverá decretar nas próximas horas a prisão preventiva do jovem Carlos Alberto Baptistella – considerado um dos principais líderes da manifestação de ontem –, para averiguações.
A concentração na praça Coronel Fernando Prestes e a passeata pelas ruas centrais foi marcada de muita baderna e politicagem, atribuída a grupos radicais de Sorocaba e a líderes do Partido dos Trabalhadores. Terminou por volta da meia-noite com muita violência, conflitos, pancadarias, agressões, depredações e até prisões. Foi espetáculo realmente deprimente, talvez único em toda a história tricentenária de Sorocaba.
Agentes do DEOPS de São Paulo se deslocaram até nossa cidade e acompanharam as manifestações, inflitrados entre os jovens. (…) O Deops está ainda com uma lista de mais de trinta nomes de manifestantes, que também deverão ser convocados oportunamente para prestarem maiores esclarecimentos. Entre eles estão aqueles que comandavam o coro que se formou e gritava palavras de baixo calão e slogans contra o presidente da República, o governador do Estado e o Juiz de Direito que tomou a medida preventiva pela moralização dos costumes sociais em Sorocaba.
(…) No fundo a portaria do Juiz, que em boa hora apenas procurou moralizar os costumes em Sorocaba e certas atitudes registradas em nossas vias públicas e que se traduzem em grandes atentados ao pudor, foi mal interpretada por uma minoria de jovens acostumados a promover atos e manifestações radicais em nossa comunidade, que desta vez acabaram tornando a Manchester Paulista uma cidade com motivos de chacotas e gozações em todo o país.
(…)
Basicamente a concentração na praça Coronel Fernando Prestes constituiu-se dois ou três pequenos pronunciamentos de conotações políticas e até partidária que também ajudaram a co-promover o espetáculo deprimente que se viu pelas ruas da cidade ontem à noite. De resto eram gritos de ordem que se ouviam, embora com a participação apenas do grupinho que organizou a manifestação, sob os olhares indiferentes e de sátiras dos demais espectadores do espetáculo. “Mais beijo e mais pão; abaixo a repressão”, “queremos liberdade sexual”, “Imoral é a fome”, “Queremos o beijo livre, geral e irrestrito” e “Beijem-se: sejam criminosos” eram alguns dos slogans ouvidos, enquanto casaizinhos desavergonhados faziam questão de pousar para as máquinas fotográficas da imprensa presente com beijos eróticos e cinematográficos.
Em dado momento no entanto, não conseguindo mais controlar os assobios e barulho do público para a realização de uma pseudo-peça teatral em torno do tema em foco, os organizadores tiveram a infeliz idéia de improvisar uma passeata, seguindo pelo Boulevard Braguinha, rua monsenhor João Soares e largo do Rosário, onde o líder do movimento, Carlos Alberto Baptistella, deu palavra de ordem para encerrar a manifestação e para que o movimento se dispersasse, “indo cada um para a sua casa, a fim de se evitar atritos com a polícia”.